PARTE INTEGRANTE DA APOSTILA DO CURSO DE PRIMEIROS SOCORROS EM EQUINOS – MAIORES INFORMAÇÕES: jjveterinario@hotmail.com 

 A síndrome cólica é um termo geral usado para descrever qualquer condição que envolva dor na região abdominal do cavalo. A cólica pode resultar de problemas que afetam a área gastrintestinal e órgãos abdominais (p.e. o fígado, baço, ou rins). A cólica envolvendo a área de gastrintestinal pode ser separada em quatro segmentos principais:

 

  1. Estômago;
  2. Intestino delgado;
  3. Intestino grosso e o
  4. Cólon menor / reto. 

 

O foco deste artigo será nas causas, tratamentos, e prevenção das cólicas originárias nas áreas de gastrintestinais. 

 

Sinais

 

Há uma grande variedade de sinais clínicos facilmente observáveis desde uma dor moderada a uma mais severa, entre eles podemos citar: Olhar incessantemente para os flancos, rolar na baia, sudorese intensa, cavar o chão, deitar e levantar diversas vezes, assumir posições anômalas (como a posição de urinar, sentar sobre os posteriores como “cachorro sentado”, deitar de barriga pra cima), inapetência, apatia, febre, etc.

O grau de dor e a resposta do animal aos analgésicos são dois dos critérios que podem determinar a severidade de uma cólica (cuidado nunca apliquem analgésicos sem o consentimento do veterinário!!! Esta ação poderá promover uma mudança do estado clínico e alterar o exame inicial) .

Os problemas que afetam o intestino delgado são tipicamente evidentes por uma história mais aguda de dor, com progressos rápidos e muito dolorosos, os problemas envolvendo o cólon maior (exceto uma grandes torções de cólon) ou cólon menor / reto manifestam um histórico prolongado com uma progressão mais lenta.

 

Avaliação clínica

 

O tratamento pode ser clínico ou cirúrgico, dependendo da severidade dos resultados dos sinais clínicos e exames complementares. 

 

Os sinais clínicos que auxiliam na avaliação da severidade da cólica de um cavalo incluem:

 

Avaliação da dor (moderada, severa). 

Temperatura,

Freqüência cardíaca e respiratória,

Tempo de preenchimento capilar (TPC),

Coloração de membrana mucosa (oral, ocular, vaginal),

Auscultação intestinal.

 

 

Diagnósticos veterinários importantes incluem:

 

Exame retal,

Sondagem nasogástrica com a avaliação do refluxo (cor, pH, odor, quantidade),

Resposta a tratamento com analgésicos. 

 

Procedimentos diagnóstico adicionais incluem:

 

Abdominocentese (coleta de fluido abdominal que cerca o intestinos). 

Ultra-sonografia,

Gastroscopia,

Radiografias.

Podem ser necessários exames de sangue para avaliar o quadro geral do animal (hidratação, infecções, anemia, etc).

 

A decisão do tratamento clínico ou cirúrgico é embasada nos dados clínicos e complementares, avaliados pelo veterinário. Nem sempre esta escolha é clara e fácil, pois existem diversas patologias com sinais clínicos iniciais muito parecidos e que apenas se diferenciam com a evolução do quadro.Um animal apresentando dores incontroláveis e progressivas (mesmo com uso de analgésicos e sedativos), refluxo gástrico constante, distensão ou ectopia intestinal no exame retal, freqüência cardíaca e respiratória alta, abdominocentese anormal, coloração de mucosas indicando congestão e TPC acima de 2’’   pode ser um grande candidato a uma resolução cirúrgica.

A importância no tempo ocorrido entre a apresentação destes sinais e a atuação do veterinário poderá ser crucial para a vida de seu animal. Como regra geral, uma síndrome cólica devidamente diagnosticada e iniciada a terapia em um período compreendido entre 1 a 3 horas oferece um bom prognóstico (cirúrgico ou clínico), diferenciando de atendimentos com mais de 6 horas. O atendimento rápido e eficaz visa diminuir as lesões nas mucosas intestinais, manter hígido o animal em caso de resoluções cirúrgicas e adequar um prognóstico bom ao final do tratamento.

 

O erro mais comum em atendimentos é a utilização de diuréticos em síndromes cólicas por práticos ou leigos. As chamadas “Cólicas de Rim” são implicadas erroneamente na grande maioria desta patologia. Cavalos com lesões renais apresentam sinais clínicos distintos de cólicas gastrintestinais, sendo mais severas e muitos raras. A posição álgica (dor) assumida por um grande número de animais é a mesma posição de urinar, ou seja, com os anteriores e posteriores distendidos em forma de cavalete. Esta posição infelizmente faz com que leigos apliquem diuréticos para “facilitar a micção”, pois “o animal esta com dificuldade de urinar”, este quadro além de incorreto torna-se perigoso em casos de cólicas severas.

Alguns leitores que já presenciaram tal fato talvez afirmem:

- Mas melhorou!!! Após urinar….

Felizmente a grande maioria das síndromes cólicas são distensões gasosas no intestino delgado, ceco ou cólon maior, as quais, apenas caminhando o animal para flatular, já se tem à resolução do caso, porém…., coincide com a aplicação do diurético…., ou pior, de garrafadas orais ou nasais (coca-cola + ervas).

Outro erro muito comum é a “lavagem retal” com mangueira, aonde o leigo pensa que retirando <5% de fezes da ampola retal facilitará a expulsão de fezes em 40 metros de intestinais. O dano à mucosa do reto, na grande maioria dos casos é irreversível e gera a eutanásia humanitária.

 

Segmentos:

 

  1. Estômago

 

As causas mais comuns de cólica envolvendo o estômago estão associadas a úlceras e distensões gástricas causadas por erros de manejo alimentar ou estresse. O câncer e os pólipos são causas menos comuns de cólica no estômago. 

Uma grande quantidade de grãos ou de volumoso (fenado ou não) administrados a cavalos de uma só vez (independente da idade, raça, esporte, etc) podem causar uma distensão gástrica, de ocorrências abruptas, provocando dor severa, aumento da freqüência cardíaca e causando sudorese. A estase do alimento no estômago gera mais fermentação e conseqüentemente mais dilatação. A anatomia do órgão e a fisiologia eqüina não permitem que o animal expulse este conteúdo através da emese, acarretando em casos sem tratamento veterinário, a ruptura deste órgão e morte do animal.

As úlceras gástricas são mais comuns em potros e cavalos jovens do que em cavalos mais velhos. Os sintomas mais comuns de úlcera gástrica são o ranger de dentes, salivação excessiva, cólicas intermitentes (freqüentemente depois de comer), emagrecimento e apetite caprichoso. 

 

Tratamento

 

O ajuste no manejo alimentar, ou seja, qualidade X quantidade / 3 a 4 vezes ao dia, já surte um bom efeito profilático e curativo.

Quando a distensão gástrica está diagnosticada, o veterinário através da sondagem nasogástrica, faz a retirada do alimento com água e termina com manutenção desta mucosa através de medicamentos protetores. O uso ou não de analgésicos dependerá da avaliação clínica do animal. Este tipo de afecção é responsável por mais de 70% das síndromes cólicas com intervenção veterinária.

No caso de gastrites ou úlceras gástricas o tratamento inicia-se no manejo alimentar e como coadjuvante o uso de antiácidos orais (pós ou pastas) ou injetáveis.

Quaisquer antiinflamatórios como fenilbutazona, diclofenacos, fluxinim meglumine ou ketoprofeno devem ser evitados, pois contribuem na ulceração gástrica. 

 

  1. Intestino Delgado

 

O intestino delgado pode ser afetado por numerosas condições que podem causar a síndrome cólica. 

Será mais fácil se dividirmos estas condições em três grupos:

 

  1. Obstrução

 

Causas:

• Impactação verminótica por Ascarídeos (lombrigas redondas em cavalos jovens). 

• Impactação alimentar. 

• Corpo estranho (enterólitos). 

• Constrição. 

• Abscesso Abdominal. 

•. Tumores

 

  1. Estrangulamento (circulação sanguínea intestinal comprometida). 

 

Causas:

• Torção intestinal. 

• Encarceramento de intestinos em estruturas abdominais. 

• hérnia de diafragmática (deslocamento traumático de intestinos no tórax). 

• hérnia de Inguinal (garanhões ou cavalos recentemente castrado). 

• hérnia Umbilical (potros e cavalos jovens). 

• Lipoma (tumor células adiposas em cavalos idosos). 

 

  1. Ileus (intestino sem motilidade):

 

Causa comum: infecção do intestino delgado (enterites). 

 

Tratamento

 

Tratamento da maioria das obstruções ou estrangulamentos intestinais requer intervenção cirúrgica imediata. 

Estas cólicas normalmente progridem e a condição de cavalo deteriora rapidamente.Se a intervenção cirúrgica é uma opção, a manutenção da sonda nasogástrica é essencial para a sobrevivência do cavalo. Se não houver a descompressão do estômago este romperá. Uma vez o estômago rompido, a eutanásia é a única opção humanitária. 

Algumas impactações alimentares do intestino delgado podem ser tratadas clinicamente com laxantes, fluidos intravenosos, e analgésicos.

O prognóstico dependerá da severidade da patologia intestinal e o grau de deterioração sistêmica. 

As infecções intestinais ou enterites demandam um tratamento clínico agressivo, às vezes mais oneroso que um ato cirúrgico e com prognóstico reservado. 

A infecção intestinal é uma patologia grave e demanda um acompanhamento veterinário hospitalar, pois o animal deve ser avaliado 24hs por dia, pois necessitam de uma descompressão de regular estômago pela alta quantidade de refluxo produzida pelos intestinos (sonda nasogástrica), drogas antiinflamatórias e antibióticoterapia potente, já que alguns tipos bacterianos isolados de cavalos adultos com enterite são Salmonela sp. e Clostridium sp. e uma fluidoterapia constante (de 50 0 150 litros de soluções poliônicas /Dia).

Alguns animais chegam a receber transfusões de protoplasma para combater perdas protéicas e evitar a absorção de toxinas nos segmentos de intestino afetados.

O prognóstico destes cavalos é variável e são em grande parte dependente na duração do refluxo e da homeostase sistêmica. Estes cavalos são propensos a laminites, então, deve-se dar um tratamento de apoio para evitar ou mesmo amenizar tal processo.

 

 

 

Prevenção

 

Infelizmente, não podemos prevenir crises intestinais, a única causa que pode ser prevenida é impactação verminótica através de vermifugações corretas e eficazes, principalmente em potros e cavalos jovens evitando grandes cargas de vermes mortos. Recomendo uma vermifugação inicial em potros com seis a oito semanas de idade e repetir a cada seis semanas até seis meses de idade. Neste momento, os potros podem ser incluídos no programa de vermifugação da fazenda que tipicamente envolve uma vermifugação a cada oito a doze semanas. 

Todas as éguas grávidas devem ser vermifugadas um mês antes de parir para diminuir a quantia de parasitas para os quais o potro é exposto. Todos os cavalos novos devem ser vermifugados na chegada ao haras, evitando contaminações nos pastos.

 

 

  1. Intestino grosso

 

Desordens do intestino grosso podem ser divididas em quatro categorias:

 

  1. Obstrução

 

Causas:

• Impactação alimentar. 

• Impactação por areia (Sablose). 

• Deslocamento de cólon (à esquerda ou à direita)

• Enterolitiase (pedras)

•. Tumores

• Corpos Estranhos. 

 

  1. Estrangulamento

 

Causas:

• Torção / vovulos intestinais e

• Hérnia de diafragmática. 

 

  1. Alterações de Motilidade

 

Causas:

• Contrações excessivas dos intestinos ou acúmulo de gás.

 

  1. Inflamação

 

Causas:

• Infecção: A colite geralmente é acompanhada por bactérias : Salmonela ou Clostridium,

Erlichia Risticii (febre do Potomac), e parasitas (grandes estrôngilos e pequenos estrôngilos encistados). 

•Toxinas: Toxemia em colites incluindo o uso excessivo de drogas antiinflamatórias, sobrecarga de grãos e metais pesados. 

 

Tratamento

 

A maioria das causas de colites, como também muitas impactações alimentares e/ou por areia podem ser tratadas clinicamente. 

O tratamento de colites é bem similar ao tratamento das enterites, havendo algumas variações dependendo do segmento atingido, alterando doses ou freqüências de analgésicos, fluidoterapia e laxativos. 

Quando a extensão do segmento atingido não permite o trânsito fecal ou há comprometimento circulatório, a resolução cirúrgica é preconizada.

 

 

Prevenção

 

As impactações alimentares e as impactações por areia podem ser facilmente evitáveis com um manejo alimentar correto.

O animal com um manejo alimentar a base de feno deve ter sempre uma boa fonte de água (20L a 40L) no cocho da baia, a dentição conferida anualmente, evitando desgaste incorretos ou mesmo corrigindo imperfeições para facilitar a mastigação e conseqüentemente a digestão. As impactações por areia (sablose) ocorrem em animais que mantém um pastoreio em terrenos arenosos ou mesmo que consomem feno ou capim picado sobre superfícies arenosas, evite esta prática e a sablose não ocorrerá.

Sempre proporcione ao cavalo uma dieta balanceada e acesso livre ao sal mineral para que o animal não adquira vícios redibitórios, como por exemplo, a coprofagia.

 

 

  1. Cólon menor / Reto

 

As cólicas relacionadas à porção terminal da área intestinal normalmente são causadas por  obstrução, estrangulamento, ou dano a mucosa. 

As lesões obstrutivas variam impactações alimentares, retenções de mecônio (potros recém-nascidos), tricobezoares (bolas de pelo), enterólitos (pedras), pólipos, câncer, alterações nervosas e prolapso. O estrangulamento do cólon terminal envolve prolapsos severos (reto que protrai o ânus) e raramente lipomas (tumores de células adiposas em cavalos mais velhos). 

Os danos comuns no reto incluem:

Uma ferida retal causada por palpação, cobertura mal executada pelo garanhão ou mesmo uma laceração retrovaginal causada por acidentes no momento do parto.

 

Tratamento

 

Obstruções do cólon terminal podem ser solucionadas com laxantes, enemas, fluidos intravenosos, e analgésicos. 

Uma deficiência orgânica nervosa que conduz a impactações periódicas pode ser crônica e necessitar de uma evacuação manual diária do reto com enemas e uma dieta laxativa. As lesões requerem correção cirúrgica. 

 

Prevenção

 

Podemos seguir as mesmas ações já citadas.

Em potros recém-nascidos a retenção de mecônio poderá demandar o uso de enemas.

O risco de doenças de cunho nervoso afetando o terço distal do cólon menor é diretamente ligado ao aparecimento de Herpes vírus ou Rinopneumonite, ou mesmo Mieloencefalite protozoária (MEPE), sendo a prevenção executada através de vacinações (apenas para herpes vírus).

A palpação deve ser executada apenas por veterinários e  o parto deve ser assistido para evitar lacerações retrovaginais.

 

Conclusão

 

A área gastrintestinal eqüina é propensa a uma grande variedade de desordens diferentes que podem resultar em cólica. Algumas causas de cólica podem ser evitadas com a administração de medidas práticas, tais como:

 

  • Promover um ambiente o mais natural possível natural (como um pasto). 
  • Promover uma dieta balanceada. 
  • Promover acesso irrestrito à água limpa. 
  • Manter o cavalo em excelente forma física. 
  • Realizar vermifugações regulares.
  • Realizar uma manutenção dentária anual. 
  • Realizar transições alimentares graduais. 
  • Não colocar fenos e rações diretamente no chão. 
  • Use só a quantia prescrita de uma droga para controlar dor e inflamações. 

 

Infelizmente, há muitas outras causas de cólicas que não podem ser prevenidas, mas podem ser tratadas prosperamente. A chave de tratar uma cólica é descoberta precoce e a intervenção rápida do veterinário. NUNCA UTILIZE O “ACHOMETRO” o custo benefício de um atendimento veterinário pode ser resumido em vida X morte do seu animal, evite os “curandeiros ou práticos”, uma sondagem nasogástrica mal efetuada poderá levar seu animal a óbito.

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comentários
  1. feliciomanoel araujo disse:

    nota10 para esta materia parabens para os elaboralores,tirei toda as minhas duvidas sobre colicas equinas.

  2. celio manoela da silva disse:

    muito boa a materia

  3. Marcus Vinicius disse:

    a uma semana da prova isso foi fundamental

  4. Ramon Santana disse:

    Estão de parabéns pela belíssima reportagem, e me deram um conhecimento ainda maior pra quando me formar em veterinária ser um bom profissional!!!

  5. francis disse:

    Ola, ja faz 8 dias que um garanhão de 8 anos está sendo medicado por veterinário e a cólica ainda persiste agora tem q esperar até terça para poder interna-lo! O que faço para poder diminuir o risco de perde-lo?

    • jjvet disse:

      Esperar até terça é temeroso. Procure seu veterinário, ele pode auxilia-lo montando um esquema de internação no próprio local que ele se encontra.
      Mas procure três respostas: que tipo de cólica? Qual tratamento ideal? Qual prognóstico?
      Assim daria uma luz sobre o que ocorre com seu animal.

  6. juareci disse:

    muito bom trabalho parabéns

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