EXAME DE COMPRA

Publicado: 27 de junho de 2011 em ARTIGOS
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EXAME DE COMPRA

Após vários meses de procura você encontrou um animal que possui aptidões específicas que se enquadram perfeitamente dentro do estilo que tanto aprecia.

O que fazer?

Como ter certeza de um animal sadio, sem patologias pré-existentes?

Essas questões são facilmente resolvidas realizando-se um exame de compra, ou seja adquira o bom hábito de realizar uma consulta prévia de um animal antes de compra-lo, isso evitará surpresas após a compra!

Não é tão simples como parece!!! Há pessoas envolvidas em ambos os lados (comprador e vendedor) que estarão atentos ao resultado do exame, pressionando o veterinário e algumas vezes causando situações embaraçosas.

Método de exame

O que o veterinário irá precisar?

  • Um estetoscópio

  • Iluminação natural

  • Oftalmoscópio

  • Pinça de cascos

  • Material para desferrar

  • RX

  • Ultrasom

  • Endoscópio

  • Fichas de Exames ( Prontuários )

  • Relógio

Procedimentos antes do exame:

– Quem é o dono do cavalo?

Para não gerar um conflito de interesses geralmente o veterinário evita examinar animais que estão sob sua assistência, sugerindo que um colega realize o exame. Se mesmo assim o veterinário for examinar um animal cujo vendedor e comprador sejam seu clientes, todas as informações que pertencem a história médica daquele cavalo deveriam ser consideradas abertas (ou seja o vendedor também as terá).

– Defina com o comprador os detalhes do exame.

O veterinário não pode ser influenciado pelo valor do animal ou pelo investimento que será necessário para um exame completo.

– Defina o que fazer se porventura encontrar um problema significante durante o exame.

Por exemplo, se o cavalo for positivo em um teste de flexão articular, o comprador ou o vendedor tem a opção da realização de um novo exame em outra oportunidade.

– O comprador deveria estar presente durante o exame.

Este fato nem sempre é possível, necessitando de um laudo bem explicativo da avaliação médica veterinária, garantindo a idoneidade o do exame.

– Relatar a data, o horário e quanto tempo durou seu exame.

Não é incomum uma variação do estado clínico dos animais em diferentes dias, então esclareça que os resultados do exame são válidos para aquela data especifica.

– O animal deve ser mantido em repouso e o exame ser realizado com uma boa iluminação.

O animal deve ser examinado de preferência pela manhã onde as possíveis patologias a serem encontradas (ou não) não sofram interferência de trabalhos intensos.

– Procure uma área adequada para a realização deste exame.

Um ambiente amplo com diferentes tipos de solo (duro e macio), com o auxílio do cavalariço e cavaleiro, o exame físico pode ser realizado observando-se as diferentes técnicas para identificações de lesões.

Identificação do animal

1. Identificação

– Realize a resenha técnica do animal ou obtenha qualquer documentação referente ao seu aspecto zootécnico.

– Sugiro a obtenção de exame de A.I.E. antigo para provar qual o animal examinado se o comprador não estiver presente.

2. Idade

– A documentação da idade poderá ser facilmente estabelecida através de passaporte ou documentos oficiais das associações.

– Ocasionalmente poderemos encontrar um cavalo onde a idade não condiz com a dentição, isso causará conflitos com o vendedor, podendo ser resolvido com opiniões de colegas especialistas na área odontológica.

– Enfatize ao comprador que a idade do animal observada através dos dentes é apenas estimativa e proponha uma segunda opinião no caso de conflitos.

3. Tamanho

– A altura é crítica quando examinamos pôneis ou mini-pôneis, devendo se mensurada e registrada na data do exame.

– A altura não é registrada oficialmente nos passaportes até que o animal complete seis anos de idade por isso sempre mensure mesmo se este dado estiver no passaporte.

– Observe o registro do animal nas associações específicas

4. Outras observações

– O animal está sendo medicado?

– O cavalo tem algum vício? (aerofagia, coprofagia, tique de urso, etc….)

– O animal possui algum tipo de alergia ?

– A coleta de sangue e urina para posterior anti-dopping pode ser realizada caso exista interesse.

– Verifique o temperamento do animal.(Muito importante para pessoas idosas ou crianças)

– Avalie o animal apenas como um clínico e nunca avalie a performance atlética ou talento do animal para a área que se destina, também não julgue seu cavalo e cavaleiro formam um conjunto. (Embora você pode se sentir moralmente justificado para expressar uma opinião quando atesta a segurança de um animal para uma criança)

– Investigue qual será o uso do animal (qual o nível de atividade física que será exigida)

– A conclusão do exame nunca deve ser favorável ou desfavorável a compra do animal e sim apenas uma apresentação do estado clínico do animal na data do exame, relatando as patologias e suas possíveis implicações durante um certo espaço de tempo após a compra deste animal ao ser usado dentro das características físicas relatadas pelo comprador.

Exame físico

– Antes da realização do exame indagar ao vendedor se o animal encontra-se apto a realização do exame na data prevista.

– Observar o animal na baia relatando seu temperamento em seu habitat

– É muito importante seguir um protocolo para todo e qualquer exame de compra, evitando alterar a sua rotina por ações externas

1. Condição do Animal

Observe o pelame, o peso e procure danos no tegumento (pele) como cicatrizes ou feridas, investigue aumentos de volumes (animais tordilhos tem uma grande incidência de melanomas na região perianal). Observe cuidadosamente as cicatrizes e sua localização (principalmente abdômen, abaixo da garganta, quartelas e áreas com pêlos brancos), isso poderá evidenciar atos cirúrgicos prévios. Confira também em animais quarto de milha a sensibilidade da cauda pois esta poderá ter sofrido uma dessensibilização (proibida em vários países).

2. Cabeça

Observe os linfonodos, glândulas salivares, sinus, orelhas (identifique a presença de chumaços de algodão – reduzem a distração através dos sons ambientais) , melanomas, mucosas, orais, nasais e oculares.

Verifique se o animal possui alguma descarga nasal, se ela é uni ou bilateral, qual a coloração, se ela é fétida ou não. Avalie o estado dos dentes, se há necessidade de groza-los , a existência de dentes de lobo, observe a língua, se há cicatrizes ou mesmo lacerações.

3. Olhos

Observe a resposta pupilar, com um oftalmoscópio, observe cicatrizes, uveítes, lesões na córnea ou qualquer lesões que possam afetar a visão do animal. Observe o animal em uma área reservada (baixa iluminação) se for necessário.

4. Auscultação

O veterinário deverá realizar o exame auscultatório em um ambiente tranqüilo para não comprometer a audição de algum estado patológico.

Deverá ser auscultado os pulmões e a região traqueal (observando também a freqüência respiratória), o coração (ritmo e intensidade) e região abdominal.

Não se preocupe quanto ao tempo utilizado para este ato, demore o tempo que for necessário para identificar (ou não) possíveis patologias nos respectivos órgãos examinados. No caso de não estar seguro sobre alguma patologia o veterinário poderá recorrer a um exame complementar ou até mesmo recorrer a um especialista (por exemplo um Eletrocardiograma).

5. Sistema Reprodutivo

Égua: Verifique se o animal tem alguma patologia que impeça a reprodução ( o proprietário poderá colocá-la na cria após a vida útil esportiva, observe cicatrizes no flanco (isso poderá evidenciar cirurgias ovarianas).

Garanhão: Realize uma avaliação andrológica completa do garanhão isto poderá ser crucial para a venda do animal.

Animais Castrados: Confira o local da castração, verifique a cicatrização e a quanto tempo o animal foi castrado (em animais de salto, por exemplo, cicatrizes extensas na região escrotal podem interferir no salto de obstáculos que exigem distância além da altura – oxers).

6. Sistema Músculo – Esquelético

A avaliação deste sistema é de suma importância para animais destinados ao esporte.

Procedimentos do exame:

Realize uma anamnese completa, identificando toda a história médica do cavalo, o veterinário indaga ao dono relativo o passado e dificuldades presentes do cavalo.

Uma avaliação visual do cavalo em repouso dará o inicio ao exame.

O veterinário estudará a conformação e o equilíbrio procurando qualquer evidencia de danos ou tensões causadas por desvios anatômicos.

Após a observação do animal em repouso o veterinário o avalia em movimento, caminhando e trotando, observando de frente, de trás e em ambas as visões laterais procurando divergências na andadura. O animal também deve ser observado a passo e no trote em círculos, em linha reta e montado.

Após esta observação o clínico passa a examinar o animal através da palpação dos músculos, articulações, ossos e tendões, tentando evidenciar a dor, calor, inchaços ou qualquer anormalidades físicas.

O uso de uma pinça de casco permite a avaliação da sensibilidade dos cascos.

O método mais utilizado para avaliarmos o estado articular do animal é o teste de flexão.

O veterinário flexiona os membros do animal durante um determinado espaço de tempo e o libera para o trote e posterior observação de sinais de movimentos irregulares (claudicações), evidenciando a dor.

Cada animal tem características individuais quanto a este método de avaliação e o veterinário deve estar atento a esse tipo de variação clínica.

Uma claudicação pode aparecer tanto como uma redução sutil na amplitude do passo ou mesmo uma condição severa em que o animal não apoia sobre o membro afetado. Pensando nisso regras ou classificações foram desenvolvidas para auxiliar o médico veterinário a mesurar a intensidade desta claudicação. O método que eu utilizo tem uma variação que vai de zero a cinco e foi desenvolvida pela Associação Americana de Veterinários de Eqüinos ( AAEP):

0: Claudicação não perceptível

1: Claudicação difícil de observar, intermitente e circunstancial ( apenas em superfícies duras, apenas em círculos ou sobre inclinações)

2: Claudicação difícil de observar ao passo ou ao trote em linha reta, mas constante sob certas circunstancias ( por exemplo: em circulo, inclinações, superfícies duras etc…)

3: Claudicação constante ao trote em todas as circunstancias

4: Claudicação óbvia ao passo

5: Claudicação severa que inabilita a movimentação do animal

O veterinário deve observar o cavalo em superfícies macias e duras, puxado pelo cabresto e sob trabalho selado, ao passo, trote e galope. Porém, o trote é a andadura mais útil para avaliar a claudicação pois é uma andadura simples consistindo de um padrão de passo largo de duas batidas, sendo o peso do cavalo distribuído uniformemente entre pares em diagonais, a velocidade e o choque de um passo mais rápido podem ajudar a aumentar a dor, mas a identificação do membro afetado é facilitado pelas andaduras mais lentas.

Este exame determinará duas coisas:

1º O animal é na atualidade manco, ou há condições existentes que merecem exames mais detalhados?

2º Qual é a probabilidade deste animal permanecer útil para o seu uso atlético?

Depois de executar os teste de flexão poderemos decidir por exames complementares em articulações suspeitas ou de grande incidência de patologia relacionadas a determinados esporte.

A radiografia além de auxiliar na avaliação do estado clínico do animal, documenta o exame. Para que não existam dúvidas ou controvérsias um radiologista isento ou um outro colega poderá realizar este exame.

A avaliação radiológica deverá ser acompanhada, invariavelmente, pelo exame clínico pois aspectos radiológicos por si só não apresentam condições de avaliação (exceto lesões graves ou extensas). Por exemplo, uma radiografia do casco poderá evidenciar uma patologia chamada doença do navicular e ser taxada de moderada ou severa baseada apenas no laudo radiológico enquanto que clinicamente o animal não apresenta sinais de lesão ou mesmo dor.

A união de métodos complementares deve auxiliar o clínico e não confundi-lo e o método escolhido não poderá ser avaliado sozinho e sim em conjunto com o exame do animal como um todo.

Alguns Outros Aspectos:

Exames muito invasivos poderão não ser autorizados pelo vendedor, como por exemplo, a coleta de liquor para um exame de EPM, lembre-se o vendedor também investiu muito em seu animal e tem todo o direito na recusa de tais exames. Isto deverá ser confrontado com o comprador para que haja um consenso com o vendedor.

Aspectos Legais

O comprador tem acesso a todos os dados do exame clínico do animal, sendo estes dados, confidenciais e apenas poderão ser divulgados após uma autorização do mesmo.

O custo do exame bem como dos exames complementares serão por conta do comprador, ficando assim responsável por todo o material adquirido após o exame ( radiografias, ultra-sons , etc…)

O veterinário não deve vetar ou aprovar nenhum tipo de animal baseado no exame de compra e sim avaliar a capacidade clinica no momento do exame e oferecer um laudo baseado no dia da realização do próprio, isentando-se de possíveis controvérsias em exames realizados em diferentes datas por outros colegas.

A característica principal do laudo veterinário é baseada na confiança e experiência clínica do examinador, a capacidade de prever uma cronicidade ou evolução de uma lesão pré existente varia de acordo com estas características.

Conclusão

O exame de compra pode parecer certamente uma tarefa assustadora, onde interesses financeiros estão em jogo e o resultado de um laudo veterinário poderá gerar conflitos entre as partes envolvidas. Porém o exame garante ao comprador e ao vendedor que o animal adquirido possui baixo, médio ou alto risco as funções pré estabelecidas a sua vida atlética, ficando a decisão de negociação entre as partes interessadas.

NÃO COMPRE ANTES DE CONSULTAR SEU VETERINÁRIO!

Jose Joffre Martins Bayeux

médico veterinário

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