Sarcóide Equino
José Joffre M. Bayeux

O tumor que mais afeta os equídeos, muares e asininos é o Sarcóide Cutâneo.
É um tumor fibroblástico, não maligno e localmente agressivo. Aparentemente não há predileção por idade, sexo, raça, cor ou época do ano, mas vários relatos informam a ocorrências deste tipo de lesão em animais com mais de 10 anos de idade e geralmente múltiplas lesões em regiões como a cabeça, membros pélvicos e abdômen ventral.

Imagem

Imagem

Imagem

Imagem

Imagem

Estratos da Derme

Imagem

Derme Normal

Imagem

Sarcóide Equino

Imagem

Sarcóide Equino

DIAGNÓSTICO CLÍNICO

Para o propósito de identificação clínica, os sarcóides podem ser divididos em 3 ou 4 grupos. Esses se subdividem em tipos clínicos com duas entidades secundárias que podem ser uma evolução de tumores da categoria principal.

Entidade Clínica Primária

Tipo verrucoso

Este é caracteristicamente seco, caloso ( córneo ) e com aparência semelhante a uma couve-flor e aparece no nível ou acima da pele. Eles têm crescimento relativamente lento e raramente excedem 6 cm de diâmetro, se traumatizado, há uma reação fibroblástica rápida e o tumor pode se modificar para uma mistura do tipo verrucoso com o tipo fibroblástico, com crescimento externo de tecido granulomatoso extremamente rápido. Este crescimento pode se apresentar de maneira séssil ou pedunculada.

Tipo Fibroblástico (Granuloma )

Este tipo inicia-se com nódulos fibrosos e duros de 5 à 10 mm que localizam-se preferencialmente na derme e as vezes no topo da epiderme. Na secção apresentam-se densos e branco-acinzentados. Eles lentamente aumentam de tamanho e eventualmente eclodem através da epiderme, caso ocorra um trauma ou a perda de sua cobertura epidérmica. Podem ser compostos por um grande número de nódulos sésseis ou pedunculados podendo chegar a massas de até 10 kg.

Entidade Clínica Secundária

Tipos Mistos

Este consiste numa associação do tipo verrucoso com o fibroblástico. Esta ocorrência não é comum e a observação clínica levou a conclusão de uma origem do tipo verrucoso que após um trauma modifica-se.
Em resposta a um trauma luminoso, partes das áreas do verrucoso podem se tornar fibroblásticos, mas a situação inversa não é observada.

Alopecia Nodular

Esta pode ser a manifestação mais precoce do tipo fibroblástico, entretanto desenvolve-se lentamente e é caracterizado por áreas alopecias de 2 a 8 cm de diâmetro com um ou mais nódulos dermáticos presentes nesta área. O tumor pode permanecer “adormecido” por vários anos e ocorrer uma regressão eventual.
Injurias ou interferências cirúrgicas normalmente resultam em uma típica reação fibroblástica e o tratamento criocirúrgico dos nódulos não promovem remissão a área de alopecia.

DIAGNÓSTICO LABORATORIAL

De modo geral o sarcóide apresenta-se com uma grande diversidade, podendo assemelhar-se com um papiloma, tecido de granulação crônica, habronemose, fitomicose, carcinoma de células escamosas, neurofibroma, fibromas, fibrosarcomas e melanomas, por isso o exame histológico de uma biópsia é essencial.
A extirpação completa é preferida, uma vez que a remoção incompleta normalmente causa uma reação fibroblástica significativa.
Microscopicamente, a epiderme apresenta acantólise e hiperqueratose. A hiperqueratose muita das vezes apresenta-se em fase avançada. Inclusões hialinas citoplasmáticas de vários tamanhos que normalmente são encontradas nos papilomas bovinos são frequentemente encontradas no epitélio hiperplásico. Hiperplasia pseudo-epitelial com extensões epiteliais profundas dentro do tecido adjacente são características comuns e muitas vezes proeminentes em alguns sarcóides, à menos que uma erosão ou uma inflamação no tecido tenham ocorrido, a camada basal da epiderme permanece em ordem e intacta. Acúmulo de queratina em regiões mais profundas no epitélio ocasionalmente levam a formação de escamas ou pequenos cistos de inclusão epitelial. O caráter ameaçador do sarcóide equino reside no componente dermatológico dos fibroblastos imaturos. A maioria dos sarcóides equinos são compostos por estes fibroblastos, que contém um núcleo de tamanho variável e várias figuras mitóticas dos tumores de crescimento rápido. Embora muitos dos fibroblastos necessitem de distinções histológicas, muitas regras de diferenciação podem ser observadas, e vários patologistas consideram o sarcóide equino como fibrosarcoma ou neuro-fibrosarcoma.
Células fibroblásticas da junção derme/epiderme são frequentemente orientadas perpendicularmente à membrana basal, como uma barreira. Esta junção é provavelmente um traço característico do sarcóide equino.
A maior área de células fibroblásticas contém uma abundante quantidade de mucopolissacarídeos, concentrados em áreas mais altas, as áreas mais baixas contém maior quantidade de colágeno e não contém mucopolissacarídeos, tornando assim impossível determinar a área de junção do tumor com a derme.
Como o sarcóide equino não metastatisa, o reconhecimento dessas extensões como invasões são improváveis. O fracasso da remoção cirúrgica destas extensões é provavelmente a explicação da alta porcentagem de recorrência.
Um pequeno grupo de células mastocitárias também são encontradas em alguns destes tumores. Basófilos estão disseminados e não são muito comuns. Acúmulo perivascular de células inflamatórias crônicas (linfócitos, mastócitos, histiócitos, eosinófilos e células plasmáticas) estão confinadas a uma área próxima a derme e só raramente são encontradas no tumor.

EPIDEMIOLOGIA

São supostamente de origem viral (isto é clinicamente suportado por sua natureza infecciosa ) como indicador da ocorrência de sua epizoonose e de sua transmissão. Sua relação com o vírus do papiloma bovino está sendo postulada.
Isto levou a controvérsias sobre uma possível etiologia viral do sarcóide equino, pois o DNA – vírus do papiloma bovino tem sido encontrado em grandes proporções no sarcóide equino de ocorrência espontânea.

TRATAMENTO

Antes de o tratamento ser iniciado, um cuidadoso estudo de cada caso deve ser realizado. Um prognóstico menos favorável deve ser dado quando repetidos tratamentos prévios foram fracassados, particularmente na região dos membros.
Os sete tipos de tratamento disponíveis incluem:

  1. Ligadura
  2. Medicação local
  3. Vacinação ou ativação do sistema imune
  4. Remoção cirúrgica por eletro cauterização
  5. Criocirurgia
  6. Radioterapia
  7. Hipertermia
  8. Outras Técnicas e Medicações

1 – LIGADURA

Pequenos sarcóides pedunculados podem ser tratados por ligadura elástica com lycra ou tira forte de borracha, onde há excesso de pele disponível. O sarcóide é extraído para que fique uma área de pele limpa e normal. A ligadura tem de ser feita bem junto à pele na base normal da mesma. O processo demora de 10 a 14 dias para sua completa resolução.

2 – MEDICAÇÕES LOCAIS

Aplicação tópica de agentes citotóxicos como o 5 – fluorvaxil ou 50% de resina de podophylla em álcool podem ser aplicados diariamente por 30 dias após remoção cirúrgica da massa. A pele circundante deve ser protegida com uma geleia de parafina antes da aplicação do medicamento.

3 – VACINAÇÃO OU ESTIMULAÇÃO DO SISTEMA IMUNE

A vacina de verrugas bovinas ou a poxvacina tem sido considera de pouco valor. Auto vacinas tiveram menos que 25% de sucesso.
A terapia com bacilo cametteguerin (BCG) é advogada. Lesões de mais de 6 cm foram tratadas com sucesso, mas no caso de grandes massas, devem ser cirurgicamente reduzidas antes do tratamento com BCG. Outros fatores importantes incluem a dosagem adequada (ainda não estabelecida corretamente), injeção intra-lesional e a capacidade do paciente quanto a resposta imunomediada. Antígenos espécie-específicos foram demonstrados no sarcóide equino. As vacinas de BCG estão comercialmente disponíveis no mercado (reconstituídas ou com adjuvante oleoso com parede de celular modificada).
A vacina comercial reconstituída é injetada em múltiplos locais na base do tumor até que 1 ml for administrado. As vacinas são repetidas a cada duas semanas até ocorrer regressão. A dosagem da preparação com parede celular modificada é baseada na área de superfície do tumor remanescente após a excisão cirúrgica. Múltiplas injeções na lesão nos dá um total de 0,009 ml por mm²da área da superfície. Isto é repetido por sete dias. Injeções subsequentes determinaram reação tecidual. Quando reações moderadas ocorrem, a terceira injeção é dada três semanas após. Se a reação for severa, a injeção é cancelada até a quarta semana. Normalmente 4 injeções são suficientes para a remissão total; a quarta injeção é dada 4 semanas após a terceira injeção, se necessário.
Aplicações adicionais devem ser feitas com extrema cautela.
Mortes por choque anafilático foram registradas após a segunda injeção e alguns autores recomendam o uso de corticoide ( predinisolona 2 mg/Kg ) por via intramuscular junto das aplicações do produto. Ambos tratamentos de BCG tem mostrado altas taxas de regressão da tumoração.

4 – REMOÇÃO CIRÚRGICA

Apesar de simples e largamente utilizada, a retirada dos sarcóides demonstra resultados normalmente frustrantes, ocorrendo reincidência em mais de 50% dos casos. É imprescindível que se remova um mínimo de 0,5 cm a 1 cm de pele sadia ao redor da lesão, caso isto não seja realizado, aumenta-se a porcentagem de reincidência. A sutura não aumenta a porcentagem de sucesso da remoção total. Normalmente quando a remoção cirúrgica é escolhida, o animal recebe anestesia local e sedativos para facilitar a remoção.
A retirada feita através de eletrocoagulação deve ser feita da mesma maneira, removendo-se de 0,5 cm a 1 cm de tecido normal ao redor da lesão e o tecido tumoral dissecado até sua porção onde encontra-se com a derme normal.

5 – CRIOCIRURGIA

Este é o método de eleição para grandes massas e áreas de difícil acesso, produzindo resultados mais consistentes.
O criógeno (cryogen) é o nitrogênio líquido e o uso deste, em spray ou sonda, oferece uma melhor aplicação. Para o tratamento de lesões perioculares pode ser necessário cobrir as estruturas sensíveis adjacentes com uma espuma de polietileno.
Um orifício um pouco maior que a lesão é feito na espuma e faz-se a aspersão do produto com cautela. Deve ser tomado cuidado de cessar a aplicação do criógeno quando a lesão estiver congelada. Todas as lesões devem ser tratadas duas vezes com um círculo de congelamento alternando a -20ºC. O resultado do tratamento está diretamente ligado a uma aplicação efetiva e correta, o congelamento deve ser rápido e em pequenas áreas, seguido por um lento descongelamento até atingir a temperatura ambiente. A monitorização cuidadosa da sonda é importante quando há estruturas delicadas adjacentes ao local à ser tratado. As sondas são colocadas em 0,5 cm da borda do tumor e 0,5 cm de sua base. A área ao redor do tumor deve ser limpa e tricotomizada, todo área do tumor deve ser removida e a hemorragia controlada;
Quando grandes vasos são seccionados, deve-se ter cuidado para que haja uma hemóstase efetiva , pois retardará o processo de congelamento.
Ocorre uma tumefação da área 30 minutos após a aplicação, e esta permanece por vários dias. Como a necrose ocorre ao longo da borda da lesão, vamos ter principalmente um odor fétido. Os proprietários devem ser avisados deste odor, e a cura deve ocorrer ao longo de 8 semanas. A aplicação de produtos antissépticos deve ser preconizada.

6 – RADIOTERAPIA

A radioterapia deve ser sempre realizada por um radiologista qualificado. A base da radioterapia é a destruição seletiva do tecido. Células neoplásicas e inflamatórias são destruídas mais rapidamente que as células normais. Como regra geral a sensibilidade celular a radiação é diretamente proporcional a sua atividade reprodutiva (mitose) e inversamente proporcional a seu grau de diferenciação.
A sensibilidade individual das células é mais influenciada pelo estado do seu metabolismo, e o fator mais importante é a disponibilidade do tecido oxigenado, pois este aumenta à sensibilidade a radiação.
A maioria dos autores concorda que apesar de lesões agudas responderem prontamente a radioterapia, raramente ela é utilizada, isto ocorre por que os outros métodos são mais facilmente utilizados.
Formas comuns de ionização:

-Raio X
-Partículas
– Radiações

Lesões granulomatosas, carcinoma de células escamosas e alguns melanomas respondem bem a radioterapia, mas os resultados com o sarcóide equino não são bons, pois o tecido de granulação crônica responde bem a doses relativamente baixas de radiação (200 Rad.), e o sarcóide, a doses relativamente elevadas (5000 a 6000 Rad.). É essencial que um diagnóstico preciso seja bem realizado antes de se efetuar o tratamento. Em cada caso é recomendado que a massa tumoral seja extirpada até o nível da pele circundante antes da aplicação da fonte radioativa. A radiação sob a forma de Césio ou Irídio tem provado resultados favoráveis aos sarcóides localizados nas pálpebras.

7 – HIPERTERMIA

A aplicação de calor por sonda térmica é moderadamente bem sucedida no tratamento de sarcóides. Até o presente momento não pode ser considerada prática econômica ou eficiente de tratamento.

8 – OUTRAS TÉCNICAS E MEDICAÇÕES

Uma vasta lista de tratamentos alternativos como:

– Vaporização laser: Uso de aquecimento a laser para a destruição do tecido tumoral pode ser usado junto a extirpação cirúrgica.
– Tea Tree Oil: Aplicação tópica tem aparentemente ajudado em alguns casos.

EFICIÊNCIA DOS TRATAMENTOS
Cirurgia tradicional 60%
Criocirurgia 80%
Radioterapia 70%
Imunoterapia 65%
Quimioterapia 80%
Terapias Combinadas 85%
Outros Sem Avaliação

A avaliação da porcentagem foi definida em animais tratados com a remoção completa e que não tiveram recorrência após 3 anos.

Nota: Esta tabela é meramente um apanhado geral de resultados vistos clinicamente.

 

Caso Clínico

Campolina, Fêmea, 7 anos.

Imagens de um Sarcóide verrucoso na região auricular

Imagem

Imagem

Após 2 meses, o tamanho quadruplicou!

Imagem

Tratamento de escolha:

Remoção cirúrgica adicionada a quimioterapia (cisplatina).

Imagem

Imagem

material para biópsia

Imagem

Aguardando o resultado….

Irei postando aqui caso ocorra recidiva ou cura total…

Imagem

Até mais….

Hoje, dia19/03, 20 dias após a remoção Unida a quimioterapia:

20130319-142843.jpg

A histopatologia também confirmou o diagnóstico:
Exame: 33022
Nome: xxxxxxx
Espécie: EQUINA Raça: CAMPOLINA Sexo: FÊMEA
Médico(a) Veterinário(a): JOSÉ JOFRE MARTINS BAYEUX
EXAME HISTOPATOLÓGICO
Material: Fragmento de lesão cutânea em local não informado.
Exaame macroscópico:
Data da Coleta: 28/02/2013 Idade: 2006

Recebido fragmento irregular acastanhado e fibroso em álcool, medindo 4,0 x 3,5 x 3,0 cm nos maiores eixos. Ao corte, mostrou superfície esbranquiçada e lisa. Porções representativas foram submetidas a exame histopatológico após fixação em solução de formol 10%.
Exame Histopatológico:
Observa-se exuberante proliferação de fibroblastos em derme, apresentando núcleo oval a alongado com anisocariose discreta, cromatina pontilhada heterogênea e nucléolos redondos pequenos e proeminentes, formando feixes desorganizados acompanhados por abundante estroma colágeno. Figuras de mitose são ocasionais (0 a 2 mitoses por campo de 400 X). Tal proliferação encontra-se associada a hiperplasia irregular severa da epiderme com formação de cristas interpapilares e focos de ulceração com infiltrado neutrofílico, histiociotário, linfoplasmocitario e eosinofílico associado.
Conclusão: Os achados histopatológicos são compatíveis com sarcóide equino.

 

 

VOLTO AQUI PARA POSTAR O RESULTADO FINAL:

FOTO DO DIA 23/05/2013

IMG_1474

 

 

 

PORÉM…NEM TUDO É FESTA…

SURGIU UM PEQUENO NÓDULO NO PEITO E A QUIMIOTERAPIA SERÁ INICIADA:

IMG_1475

 

 

comentários
  1. Renato disse:

    Artigo muito esclarecedor.
    Algumas dúvidas:
    1.Pode ser feita cauterização do local após a remoção?
    2.Qual a dose de cisplatina usada e com que freqüência?
    Grato pela atenção Dr J J Bayeux

    • jjvet disse:

      Que bom que gostou Renato! Realmente fiz de uma forma bem simples para que o entendimento seja fácil.
      As questões:
      1- Sim! Pode ser feita a cauterização pós retirada cirúrgica mas os resultados não são tão bons quanto as associações com agentes imunogênicos ou quimioterápicos.
      2- geralmente 1 ml por cm quadrado de lesão a cada 7 dias, 3 ou 4 aplicações.
      Abração
      Joffre

  2. João Paulo disse:

    Boa noite Dr J J Bayeux.
    Gostaria de saber como foi feita díluição da ciplastina e como foi realizada a aplicação ?
    Obrigado pela atenção

  3. João Paulo disse:

    Caro Dr J J Bayeux,
    Gostaria de saber se aplicação da ciplastina foi feita intrmuscular ou intrtumoral. E em relação a diluição da ciplastina ?

  4. Edivaldo de araujo lima disse:

    onde encontrar a ciplastina ?

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s