FELIZ PÁSCOA!!!! – SUPERSTIÇÕES DA ROÇA (VAI DUVIDANDO….)

Publicado: 29 de março de 2013 em AMENIDADES
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SUPERSTIÇÕES DE SEXTA-FEIRA SANTA

Desde a mais remota antiguidade os “dias aziagos” existiram entre os povos. Gregos e romanos respeitavam-nos e os reconheceram por lei. Mais tarde, com o advento do cristianismo, foram tais superstições condenadas e abolidas. O povo, entretanto, continuou com elas dando-lhes, porém, outras diretrizes, baseadas, quase sempre, no próprio calendário e práticas cristãs.

Durante a Idade Média, bruxas e bruxedos eram crimes e os que os praticavam ou deles se utilizavam, eram condenados. Entretanto, e apesar disso, sempre existiram e nada conseguiu exterminá-los por completo, e os “filtros mágicos” tinham larga aplicação.

Com o cristianismo, porém, mais algumas foram acrescidas, como a sexta-feira e o número treze que se tornaram superstições baseadas na vida terrena do próprio Cristo.

A da sexta-feira tomada como dia aziago, se originou no fato de ter Jesus expirado na cruz em dia de sexta-feira, – a Sexta-Feira Santa, – e o número treze tem por gênese a última ceia, quando se reuniram Cristo e os doze apóstolos, treze pessoas, portanto, dos quais, um, – Judas, – nessa mesma noite vendera o Divino Mestre por alguns dinheiros, enforcando-se, depois, numa figueira. Por esse acontecimento também a árvore do enforcamento, – a figueira, – se tornou maldita, segundo uns, e, segundo outros, árvore da justiça divina, árvore da vingança.

Se o número treze não tem significado maior nosfastos do cristianismo, a sexta-feira tem, pois é consagrada, durante todo o ano, à recordação da morte do Salvador e a sexta-feira aniversário dessa morte é considerada santa, denominando-se, na França, a grande sexta-feira, e na Inglaterra a boa sexta-feira.

Na sexta-feira santa, em todo o orbe cristão, os sinos não tocam e o catolicismo, além disso, nesse dia não reza a santa missa. É, dessarte, dia de luto integral e não de festa, daí não ser considerado, apesar do nome, dia santo de guarda e ser proibido, canonicamente, comer carne a não ser peixe, e ser obrigatório o jejum a todas as pessoas maiores de vinte e menores de sessenta anos. Chama-se esse dia, liturgicamente,parasceve, isto é, preparação, nome que lhe vem dos preparativos que faziam os judeus, nesse dia, para a Páscoa.

Tais acontecimentos de base cristã estabeleceram, entre o povo, uma série de crendices e superstições difíceis de serem extirpadas, formando, por isso, parte integrante do folclore dos povos.

É curioso notar-se que, dessas superstições, algumas tiveram cunho oficial, decretadas por lei, entre nós, no Rio Grande do Sul e nesta “mui leal e valorosa cidade de Porto Alegre”, conforme veremos mais adiante.

***

Em Portugal o respeito à sexta-feira vem de remotas eras. Alexandre Herculano, num “romance de jogral” – que declara ser do século XI (Lendas e narrativas. v. 2. ‘A dama Pé de Cabra’), – diz que dom Diogo que casara com a dama Pé de Cabra, bruxa ou alma penada, – recebera de um santo abade ao qual se fora confessar, ralado de desgostos, a penitência de “ir guerrear com os perros sarracenos por tantos anos quantos vivera em pecado, matando tantos deles quantos dias nesses anos tinham corrido. Na conta não entravam as sextas-feiras, dia da Paixão de Cristo, em que seria irreverência trosquiar a vil relé per agarenos, cousa neste mundo mui indecente e escusada“.

Já era o princípio de que matar em sexta-feira acarretava pecado, mesmo em guerra justa, o que o povo entendeu dever estender também à matança de animais para a sua alimentação,mormente na que se consagra à comemoração da morte de Nosso Senhor. A pouco e pouco, ou simultaneamente, também os outros trabalhos rurais, agrícolas, e, mesmo, caseiros, em sexta-feira santa foram vedados, circundados de superstições as mais diversas e de cousas que se não devem fazer, ora por ser pecado, ora por atrair a infelicidade e outras cousas.

Vemos, assim, entre nós, vindas de antigos tempos, superstições várias relacionadas com a Sexta-Feira Santa, e aqui referimos, principalmente, as de nossa infância nas minas de carvão do Arroio dos Ratos, município de São Jerônimo, Rio Grande do Sul.

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Vida Rural

Na Sexta-Feira Santa, ainda em primórdios deste século, era proibido pela tradição supersticiosa:

a) Matar qualquer animal, mesmo para alimentação. O fazendeiro que o permitisse ou o marchante que o fizesse estaria fatalmente condenado a grandes prejuízos, além de outros males.

Tivemos notícia de certo cidadão que teimara em matar uma ovelha para comer no Sábado de Aleluia e que, ao degolá-la, teve a faca arrebentada da mão e jogada, de ponta, sobre o pé, cravando-o no solo!

Outra história com que a preta velha, cozinheira, nos enchia a cabeça, era a da sinhá dona que matara uma galinha na sexta-feira santa e que, como castigo divino, enquanto a galinha estrebuchava, desmaiara. Ao voltar a si, estava paralítica do braço esquerdo, justamente o braço com que torcera o pescoço à galinha.

b) Tirar leite também era vedado. O leite ao sair do úbere da vaca, ou da cabra, virava sangue. Ou então, em vez de leite, jorrava sangue ou ainda, ficava o animal inutilizado porque nunca mais se podia ordenhá-la: em vez de leite, dava… sangue, leite com sangue!

Contavam várias transformações dessas como a cousa mais natural do mundo. Certa feita mostraram-nos uma vaca da qual se não podia tirar leite pois sempre saía sangue de seu úbere. Fora estragada, diziam, pela teimosia do ordenhador em querer ordenhá-la em Sexta-Feira Santa.

Contou-nos um “crente” que seu pai tivera uma vaca de primeira qualidade, grande leiteira. Entretanto, ordenhada numa Sexta-Feira Santa, ficara inutilizada, pois o úbere ficara coberto de feridas que nunca foi possível curar. Outro nos contou que, pelo mesmo motivo, o úbere secara… e a vaca ficara estéril!

Por tais cousas, no dia da paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo ninguém tomava leite. Entretanto, soltavam os terneiros para ficarem com suas mães, mamando à vontade. E nada acontecia!

c) Vender carne que não fosse de peixe, nesse dia, acarretava a cólera divina. Por isso, já na quinta-feira à tarde não se procedia à matança alguma, pois ninguém quereria a carne com medo das conseqüências. Mesmo porque comércio algum abria suas portas e… não havia ainda refrigeração.

A matança do gado, portanto, só se iniciava pela madrugada, – três ou quatro horas, – de sábado, e somente depois das dez da manhã – Sábado de Aleluia, – é que se reiniciavam as atividades em geral, abrindo o comércio e, também, os açougues, com carne fresquinha, às vezes ainda quente. De modo geral as atividades comerciais e industriais eram suspensas ao pôr-do-sol de quinta-feira. Só os botequins e armazéns ou mercearias é que ficavam abertos (alguns!) até mais tarde: vinte e duas, vinte e três horas.

d) Toda e qualquer atividade campeira era proibida. Nenhum estancieiro ou criador atrevia-se a percorrer seus campos em Sexta-Feira Santa com medo dos males que lhe poderiam acontecer e… das almas do outro mundo.

Soubemos de certo criador que tendo sido informado que uma de suas vacas de raça estava dando cria na manhã de sexta-feira santa, correu para ver o animal, isto é, para ver se estava bem. Aconteceu-lhe assustar-se o cavalo que montava justamente ao aproximar-se da vaca e, metendo a pata dianteira num cupim, rodou jogando o cavaleiro à distância e, – cousa incrível! – sobre a vaca, matando-a e ao terneiro, por isso!

Agricultura

Nada se podia plantar ou colher na roça, horta ou pomar ou jardim em Sexta-Feira Santa, a não ser certas ervas medicinais que somente deviam ser colhidas em tal dia para produzirem o devido efeito. Tal o caso da macela (Achyrocline saturioides), por exemplo. Para essas colheitas que começavam (e ainda hoje são praticadas…) à meia-noite de quinta-feira e se prolongavam pela madrugada, cometiam verdadeiros desatinos em conseqüência da muita cachaça e, também, outros, em autênticas saturnais por vales e morros onde existisse macela!

Há certas plantas, principalmente flores, que se devem submeter a certos tratamentos especiais na Sexta-Feira Santa, para darem bem. O rainúnculo (ranúnculo, da família das ranunculáceas, Ranunculus asiaticus, L., próprio para jardins), por exemplo, para dar bem, é preciso que a batatinha seja conservada em água na Sexta-Feira Santa e enterrada no Sábado de Aleluia ou domingo da Páscoa, no lugar apropriado, pois não pode ser mudada como, no geral, as plantas de batata.

Perseguir formigas ou pássaros ou animais que costumam estragar plantações, em Sexta-Feira Santa, era o mesmo que aumentar-lhes o número e o poder destruidor. Podiam estar vendo os estragos, mas não se moviam.

Comércio

Em Sexta-Feira Santa não ficava aberta casa comercial de espécie alguma. Nem mesmo os botequins. Apenas as farmácias podiam fornecer medicamentos e isto em caso de muita urgência. Mas, mesmo estas, não podiam ficar com as portas abertas. No geral o medicamento adquirido em Sexta-Feira Santa não era cobrado, pois nada se devia vender nesse dia. E ninguém vendia o que quer que fosse. Dava de presente quando alguém, por extrema necessidade, pedisse algo.

A Sexta-Feira Santa era dia completamente morto.

Sociedade

Só por necessidade muito grande alguém saía à rua na Sexta-Feira Santa. O silêncio era absoluto. Não se via um só cavaleiro, carro ou carroça (automóveis não existiam então, naquela zona ao menos). Essa superstição, aliás, teve outrora, em certas localidades, cunho de lei. A Câmara Municipal de Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, em sua sessão de 18 de outubro de 1870, aprovando suas novas Posturas Municipais, aprovava, ipso facto, o artigo 4º que rezava: – “É proibido andar a cavalo ou de carro no dia de sexta-feira santa. – O contraventor pagará 30$000 de multa“. – Era uma das multas mais elevadas consignadas nessas Posturas. (Veja-se o original na Diretoria do Arquivo e Biblioteca da Prefeitura Municipal de Porto Alegre, e uma nota, a respeito, no Boletim Municipal da mesma cidade, nº 13, de janeiro a abril de 1943, p. 77)

O povoado em que nascemos, nesses dias, parecia verdadeiro cemitério, pois nem mesmo as casas de família abriam as portas ou janelas. Tudo hermeticamente fechado. Só pelos fundos se notava algum movimento.

Casas havia, – e muitas, – que nem sequer o fogão acendiam. Limitavam-se a almoçar e jantar frio o que haviam preparado especialmente para a sexta-feira santa, na véspera.

As crianças não faziam barulho algum. Chorar assustava. Rir e especialmente rir alto causava terror aos pais e demais pessoas, pois podia acarretar algum mal, pelo desrespeito à data. Aliás, as crianças, todas, viviam cheias de pavores pela Sexta-Feira Santa porque já semanas antes vinham os pais ou as empregadas domésticas matracando no que se podia e não podia fazer naquele dia. E lá vinham, de cambulhada, os castigos e desgostos que a desobediência àqueles preceitos trazia.

Havia castigos de arrepiar! Os aleijões formavam na vanguarda.

Contava-se que certo moço metido a descrente fora, na madrugada de uma Sexta-Feira Santa, pescar no Arroio dos Ratos, modesto arroio que às vezes se eriçava alagando grandes trechos, mas muito aprazível pela mata-galeria que o marginava, e distante algumas dezenas de quilômetros do povoado propriamente dito. Depois de algumas horas de infrutífera faina, eis que morde o anzol enorme peixe. Nunca vira o moço, pescador habitual naquelas e outras águas, tão grande pintado (“surubim”, da família dos silurudeos) em toda sua vida de pescador!

Radiante, – apesar de assombrado, – examinava e reexaminava o peixe que, pelos seus cálculos deveria pesar mais ou menos dois quilos. Mas, enquanto admirava e apalpava o animal, forte cheiro de enxofre queimado se fez sentir. E o cheiro aumentava cada vez mais. Desconfiado, olhou em torno. Silêncio absoluto. Só ele de vivente, ali, com o peixe na mão. Entretanto, o cheiro se tornava cada vez mais forte, sufocando-o quasi. Assustado, largou o peixe no chão com intuito ou de examinar o local ou… fugir, quem sabe. Mas o peixe, com o contato da terra explodiu levantando nuvens de fumaça que, gargalhando infernalmente, desapareceram por entre as árvores.

O infeliz pescador voltou à casa meio transtornado, dizem, e nunca mais ficou bom da cabeça. Morreu completamente abobado…

***

Contavam também, que em certa Sexta-Feira Santa, chuvosa, com relâmpagos e trovões (outros dizem apenas – chuvosa), uma senhora, aí pela meia tarde, fora buscar água na fonte que ficava próximo à sua casa e que, ao retirar o balde cheio, um raio a fulminara, reduzindo-a a um punhado de carvão.

Conhecemos essa fonte, abandonada por completo, quando já por perto passava a estrada que levava ao poço novo do Arroio dos Ratos, numa pequena baixada.

Em torno desse acontecimento formou-se a lenda: todas as sextas-feiras, à meia-noite, aparecia na fonte a alma daquela mulher tirando água. Havia quem jurasse tê-la visto mais de uma vez…

Disseram-nos que em 1917 essa fonte secara por completo, desaparecendo, por isso, a alma penada da pobre senhora que não pudera passar um dia sem água…

***

A par das almas penadas e assombrações das sextas-feiras, outras crendices surgiram como a do lobisomem. O lobisomem, lobisome ou lombisome é a transformação do homem em cachorro, tranformação essa que se realiza na noite de quinta para sexta-feira, em consequência de pragas rogadas ou de malefícios feitos pela vítima. Há várias causas dessa tranformação. Quasi que em cada estado do Brasil há razão especial. No Rio Grande do Sul, segundo conseguimos apurar, o lobisomem é conseqüência de pragas rogadas ou produto das maldades de homem ou mulher que nunca procurou fazer bem a quem quer que fosse.

Havia gente, – recordamo-nos de algumas pessoas nessas condições, – de quem jamais ousavam aproximar-se receando seus malefícios. Homens e mulheres, miseráveis, sujos, imundos, que viviam não se sabia onde nem como. Perambulavam pelas ruas pedindo esmolas. Ninguém lhes negava um níquel ou um prato de comida com medo de que esses infelizes pudessem fazer na sua triste sina de virar bicho, – enormes cachorros pretos, – nas sextas-feiras, especialmente na primeira de cada mês.

Havia um arroio, afluente do dos Ratos, que passava pelos fundos da nossa casa, nascido de uma lagoa pouco acima do Poço Fé, que diziam ser habitado, em certo trecho, pelos lobisomens. Esse humilde e anônimo riacho, cerca de um quilômetro além do povoado, formara uma ilha que teria, talvez, seus cinco metros quadrados, ao que constava. Nessa ilha, afirmavam, é que viviam os infelizes que viravam bicho. Apesar de não termos conhecido muito esse riacho sem nome, não nos recordamos de tal ilha e muito desconfiamos que tanto ela, como os lobisomens, eram produto da fantasia fecunda de tais contadores de estórias… Mas é inegável que todos, ou quase todos os moradores da zona, criam piamente nesses homens-bichos e não faltava vivente que afirmasse ter-se visto atrapalhado om algum deles depois da hora da transformação: meia-noite de quinta para sexta-feira…

***

Para encerrar este capítulo, um fato deveras estranho que assistimos lá por 1910 ou 1911, e conservados em suas linhas gerais, gravado na memória.

Um dia, não faz muitos anos, recordando esseacontecimento, perguntamos a papai (falecido em dezembro de 1945) o que havia de verdade em tudo aquilo.

Papai, que viveu oitenta anos trabalhosos, nunca deu crédito a tais cousas, e nem mesmo a esse que vamos narrar e que ele assistiu, declarando-nos que tudo fora obra de dois indivíduos que haviam sido despedidos das minas por vagabundos e ladrões. Seja como for, aquilo causou terror e passou a fazer parte do rico populário da zona, em matéria de superstições relacionadas com a Sexta-Feira Santa.

Domingos, feriados e dias santos costumavam reunir-se ora em casa de um, ora em casa de outro, diversas pessoas das minas de carvão do Arroio dos Ratos, para jogarem o solo até meia-noite, no geral. Faziam parte da roda papai e um sobrinho dele, engenheiro de minas.

Na Sexta-Feira Santa de um dos anos acima referidos, a reunião dos parceiros se realizou em nossa casa que ficava, do Poço Fé, então em pleno funcionamento, cousa de trezentos metros. Naquela sexta-feira santa, como nas anteriores semelhantes, atendendo ao velho costume, o trabalho estava completamente paralisado desde às dezoito ou dezenove horas da véspera. E as ruas desertíssimas. Vivalma se via. Somente dois guardas perambulavam, talvez cheios de terror supersticioso, por aqueles enormes galpões e casas de máquinas.

A reunião para o jogo, em vez de começar à noite como era hábito, começou à meia tarde, pelas dezesseis horas, por ser sexta-feira santa e alguns morarem meio longe. Terminaria, assim, pelas vinte horas, não por medo, deveriam pensar alguns deles, mas por precaução…

Realmente, pelas vinte horas terminavam a partida de solo que era o jogo da moda e choque da localidade.

Dois dos parceiros, um deles engenheiro de minas, sobrinho de papai, saíram por último pois residiam mais perto. O caminho da casa de ambos obrigava-os a atravessar as linhas férreas do trenzinho que levava o carvão para o porto de Charqueadas, no rio Jacuí. Essas linhas e respectivos desvios para manobras eram as que separavam nossa moradia do Poço Fé. Ao porem, os dois, os pés no leito da via férrea, eis que tudo, nos galpões e casas das máquinas se põe em movimento. As fornalhas estavam completamente apagadas. Os dois guardas apareceram em seguida, espavoridos, dizendo que tudo estava em movimento sem que houvesse viva alma lá por dentro.

Realmente, o barulho, naquele silêncio profundo, era enorme. Todos nós aparecemos às janelas de nosso sobrado. Papai desceu e foi fazer companhia aos engenheiros que, entretanto, não se atreviam a entrar nos galpões, e casas de máquinas. A “gaiola” (elevador) descia ao poço e subia continuamente; ouvia-se o ruído característico da quebra dos blocos de carvão; o barulho das pás atirando o cascalho de um para outro lado; as “peneiras” trabalhando no despejo do carvão nos vagões; tudo, enfim, inclusive a pequena serraria para aparelhamento dos madeiramentos de escora no fundo do poço, estava em movimento. Entretanto, nenhuma luz, nem um filete de fumo sequer saía pelas diversas chaminés.

Durou este movimento cerca de meia hora. Talvez nem tanto, pos a impressão pode ter “ampliado” o tempo. Paralisado o misterioso “trabalho” quis nosso primo visitar os galpões. Mas… quem se atreveria a acompanhá-lo? Quem se meteria lá por dentro naquele lusco-fusco assombrado pelo silêncio morto que logo se fez?

Resolveram, então, os engenheiros, deixar a inspeção para o dia seguinte, Sábado de Aleluia. E seguiram para casa. Mas a cousa não havia cessado de um todo, pois ao passarem pelos montes de cascalho, resíduos de carvão queimado nas fornalhas e outros detritos da mina, receberam os dois, lá do alto, algumas pazadas desse material que, se não os feriu, deixou-os em miserável estado de sujeira.

No dia seguinte revisaram a maquinaria, o material do elevador, e reviraram todos os recantos dos galpões, oficinas e casas das máquinas. Nada de anormal observaram. Estava tudo na mais perfeita ordem. Notava-se, apenas, algum carvão removido e alguns vagões semi-carregados. Mas ninguém quis descer ao poço. Foi preciso que os engenheiros examinassem todas as galerias noventa e nove metros abaixo do nível do solo. Como não houvesse anormalidade alguma, resolveram os mineiros “pegar no trabalho”.

E tudo continuou serenamente, como dantes… Mas a lenda se fez e ficou por longos anos entre os velhos mineiros, desaparecendo, por fim, de todo, ou quasi de todo quando novos elementos, vindos de Espanha, ali se instalaram como imigrantes trabalhadores de minas.

Embora explicassem o estranho fenômeno como obra de dois indivíduos que haviam sido despedidos por meio de combinação de polias e correias e manivelas e recalques manuais que ali existiam, ninguém acreditava. Na realidade, nunca se pode explicar satisfatoriamente, para o povo, esse caso. Para eles, tudo foi conseqüência da intervenção diabólica, ou advertência divina aos que, desrespeitando a Sexta-Feira Santa, se haviam entregue ao jogo… embora por simples passatempo.

Vox populi

(SPALDING, Walter. Tradições e superstições do Brasil sul)

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