Orquiectomia bilateral em potro de 2 anos pela técnica aberta em estação

Publicado: 29 de dezembro de 2015 em TCCs E RELATÓRIOS
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Este pequeno relato de caso de uma estagiária, a futura Médica veterinária Katia Bakker evidencia dois fatos muito importantes para a formação acadêmica do aluno:

A vivência da prática no estágio, seja ele curricular ou não, é essencial para o complemento da sua formação.

O aproveitamento dos casos clínico-cirúrgicos do dia a dia do veterinário tutor do estágio deve ser aproveitado ao máximo, sendo o relatório diário e relatos de casos, após aprofundamento e estudos executados pelo aluno, uma excelente maneira para fixar o conhecimento e aprendizado teórico-prático.

Sendo assim, parabenizo a aluna pela sua apresentação.

Jose Joffre martins Bayeux – Médico Veterinário – CRMV-SP 8767

 

Resumo

Este relato de caso tem o objetivo de descrever o procedimento cirúrgico eletivo de orquiectomia, realizado em potro ½ sangue Quarto-de-Milha, de 24 meses e peso 350Kg, pelo MV. Dr José Joffre Bayeux, na cidade de Ibiúna/SP. O procedimento foi realizado a campo, com animal em estação, sedação e anestesia com detomidina, butorfanol e lidocaína, utilizando a técnica aberta.

 

Introdução

A castração eletiva é utilizada em animais sem interesse genético para remover as características andrógenas primárias. Ela favorece o convívio em grupo, facilita o manejo, melhora o desempenho e pode evitar futuras neoplasias, como seminoma, teratoma testicular, sertolioma e tumores das células intersticiais. (FRANÇA, 2005)

Segundo Finger et al. (2011), a orquiectomia bilateral é uma cirurgia simples e rotineira na prática equina, embora o potencial para complicações seja alto.

A castração de cavalos com testículos normais pode ser realizada utilizando sedação e anestesia local, quando em estação, ou sob anestesia geral, quando em decúbito. (SEARLE, et al., 1999)

Kersjes et al. (1986), apud França (2005), descreve 4 técnicas de castração no equino:

Técnica aberta: Todos os tecidos do escroto e túnicas vaginais são incisados e o testículo e cordão espermático são removidos. Este método é facilmente realizável a campo e pode ser realizado em decúbito, sob anestesia geral ou posição quadrupedal, sob anestesia local. A principal desvantagem desta técnica é que uma porta de entrada para a cavidade peritoneal permanece aberta, existindo o risco potencial de prolapso intestinal por esta abertura.

Técnica fechada: A emasculação envolve as túnicas vaginais e o cordão espermático conjuntamente, reduzindo o risco potencial de prolapso intestinal. Este método é usado em animais portadores de hérnias escrotais presentes ou suspeitas. No entanto, apresenta o inconveniente de permitir o acúmulo de líquido inflamatório.

Técnica semi-fechada: Semelhante à técnica aberta, onde todos os tecidos são incisados, porém, após a retirada dos testículos e cordão espermático, é feita a síntese da túnica vaginal.

Fechamento primário: É a castração em que se intenta a síntese da ferida escrotal. Deverá ser efetuada apenas sob condições de estrita assepsia.

A hemostasia é um aspecto muito importante na castração e pode ser dividida em três modalidades: hemostasia por tração; por ligadura e por emasculador. (HICKMAN et al., 1995, apud FRANÇA, 2005).

A artéria testicular faz parte do cordão espermático e é um ramo direto da aorta abdominal, portanto, uma hemorragia fatal pode ocorrer. (MAY & MOLL, 2002, apud FRANÇA, 2005).

Geralmente são empregados para hemostasia, emasculadores ou fios absorvíveis que, dependendo da qualidade, podem romper-se durante a aplicação do nó, ou serem reabsorvidos precocemente. O desenvolvimento e o aprimoramento dos materiais de sutura têm sido notáveis, tendo oferecido ao cirurgião ampla variedade de fios absorvíveis e inabsorvíveis. (FRANÇA, 2005)

Segundo Finger (2011), Cox (1984) relatou em um estudo envolvendo 311 castrações em que a técnica cirúrgica utilizando o emasculador apresentou maior taxa de sangramento, quando comparado à técnica de ligadura do cordão espermático. O que está de acordo com Silva et al. (2006), que relataram um caso de óbito associado ao uso do emasculador.

As complicações pós castração relatadas incluem edema, hemorragia excessiva, eventração por prolapso visceral através do canal inguinal, funiculite, peritonite, hidrocele, lesões penianas e permanência de comportamento de garanhão. (SEARLE, et al., 1999)

O edema é a complicação mais comum pós-castração, ocorrendo em algum grau em praticamente todos os cavalos e segundo Getman (2009), se resolve em dez a doze dias. A infecção no local é a segunda complicação mais frequente, com uma taxa que varia de 3 a 20% dos casos e o uso de ligaduras parece aumentar estas taxas. (FINGER et al., 2011)

Segundo Mason et al. (2005) apud França (2011), a taxa de complicações em castração de equinos em estação e em condições de campo é de 22%, enquanto cavalos castrados no centro cirúrgico, com fechamento primário da incisão apresentam 6% de complicações.

 

Material e métodos

O pré-operatório consistiu no jejum alimentar de 18 horas. Antes da cirurgia, foi realizado exame físico do paciente, que apresentou aumento de FC de 60 bpm, possivelmente por estresse da manipulação. Os demais parâmetros vitais estavam normais. Foi feita lavagem da região inguinal e parte interna da coxa, com água e detergente e depois enfaixada a cauda com atadura. Foi realizada antissepsia com Polivinil Pirrolidona Iodo – PVP-I em solução degermante, contendo 1% de iodo ativo (Riodeine®), em toda região inguinal, face medial da coxa, saco escrotal e parte externa do prepúcio e aplicação de 10.000 UI de soro antitetânico IM. (Foto 1)

 

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Foto1: Paciente preparado para o procedimento

 

A sedação e analgesia visceral foram feitas utilizando um alfa 2 agonista, Detomidina, com concentração 10% (10 mg/ml), na dose de 0,02 mg/Kg e um opioide, Butorfanol 10% (10 mg/ml), na dose de 0,04 mg/Kg, por via intra-venosa. A anestesia local foi realizada com lidocaína 10% (100 mg/ml), utilizando-se um volume de 2 ml para o local de incisão da pele,   10 ml divididos  entre o interior de cada testículo e funículo espermático.

A orquiectomia teve início do lado esquerdo. Foi realizada a incisão com bisturi, respeitando as camadas: pele e subcutâneo, túnica dartos, túnica albugínea parietal e  vaginal para exposição do testículo. Foram removidas excessos das túnicas com tecido solto para reduzir o espaço morto e melhorar a cicatrização.

Foi feito o esmagamento do funículo espermático com emasculador, durante 8 minutos. Durante esse período, foi feita a transfixação do funículo com fio absorvível polilactina 910 (Vicryl®) número 1. Após a transfixação, foi deixada a ponta do fio presa a uma pinça hemostática para não perder o coto do funículo. O testículo foi retirado com incisão por bisturi. Foi retirado lentamente o emasculador e observado se haviam hemorragias. (Foto 2)

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Foto 2: Emasculação do testículo esquerdo

Para realização do procedimento do lado direito, foi necessária reaplicação de metade da dose de butorfanol e detomidina. A incisão, emasculação e retirada do testículo direito foi realizada da mesma forma que a do lado esquerdo. (Foto 3)

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Foto 3: Incisão da pele e exposição do testículo direito

 

Após o procedimento, foi realizada lavagem com água e limpeza com gaze encharcada de PVP-I e depois, secagem com gaze seca. A cicatrização foi por segunda intenção, para permitir a drenagem dos líquidos inflamatórios.

O paciente retornou rapidamente da anestesia e foi colocado na baia, onde recebeu alimentação a base de feno, algumas horas depois.

O pós-operatório consistiu em repouso na baia nas primeiras 24 horas para observar possíveis hemorragias, e lavagem com água corrente, aplicação de PVP-I com gaze encharcada, secagem com gaze seca e posterior aplicação de Coumafós + Propoxur em pó (Tanidil ®), uma vez ao dia e alimentação a base de feno.

Foi administrado antibiótico à base de Penicilina (Agrosil®), 10.000UI por dia, durante 7 dias, IM e anti-inflamatório não esteroidal à base de Fenilbutazona (Fenilvet®), 4,4mg/kg, durante 5 dias, IV.

A partir do segundo dia, o paciente retornou à dieta normal e começou a fazer atividade física uma vez ao dia (20 minutos de trote em círculo, na guia) para drenagem do líquido inflamatório, antes da lavagem e curativo.

Após uma semana da cirurgia, observou-se que a ferida cirúrgica não tinha mais secreção. Foi observado leve edema no prepúcio e o paciente passou a ficar solto em piquete durante o dia e embaiado à noite. (Foto 4)

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Foto 4: Ferida cirúrgica após 7 dias do procedimento e edema de prepúcio

 

Após dois dias nesse regime, o edema do prepúcio desapareceu. 21 dias após o procedimento, a ferida cirúrgica estava completamente seca e cicatrizada. (Foto 5)

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Foto 5: Ferida cirúrgica após 21 dias do procedimento e edema de prepúcio

 

Conclusão

Na cirurgia descrita, observou-se que a anestesia utilizada foi eficiente na contenção e analgesia do paciente e permitiu um retorno muito rápido após o procedimento.

A realização do procedimento em estação evitou a possibilidade de transtornos e lesões durante a derrubada e retorno da anestesia e danos respiratórios por compressão do pulmão ou nervos periféricos dos membros torácicos ou pélvicos durante a cirurgia.

A técnica aberta, com retirada do excesso de tecido das túnicas, impediu a formação de hidrocele, seromas, abcessos ou infecções, citados na literatura como complicação da técnica fechada. Nesse sentido, contribuíram o respeito à antissepsia e às técnicas cirúrgicas durante o procedimento.

A utilização da transfixação com fio absorvível de boa qualidade acarretou mais segurança na hemostasia, que a utilização apenas do emasculador.

Não foi observada evisceração pelo anel inguinal, como citado na literatura para utilização de técnica aberta.

O pós-operatório com atividade física, limpeza e curativos diários, nas duas primeiras semanas de recuperação teve uma contribuição importante na evolução da ferida cirúrgica.

A formação de edema no prepúcio, ocorrida após uma semana do procedimento, desapareceu após a mudança de manejo, deixando o animal solto em piquete durante o dia.

A partir deste relato de caso, concluiu-se que a utilização da técnica aberta com paciente em estação para realização de orquiectomia bilateral se mostrou um método seguro, simples e com pós-operatório com mínimas complicações.

 

Bibliografia consultada:

FINGER, M. A. et al. Comparação de duas técnicas de orquiectomia em eqüinos, empregadas no ensino da técnica cirúrgica veterinária. Archives of Veterinary Science. v.16, n.3, p.53-59. Curitiba, 2011.

FRANÇA, R. O. et al. Ovariectomia e orquiectomia em equinos: uso da abraçadeira de náilon na hemostasia preventiva em comparação ao categute e emasculador. Dissertação – Mestrado. Escola de Veterinária da Universidade Federal de Goiás. Goiânia, 2005.

SEARLE, D. et al. Equine castration: review of anatomy, approaches, techniques and complications in normal, cryptorchid and monorchid horses. Australian Veterinary Journal. v. 77, n. 7,  Melburne, 1999.

 

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